sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Será que o Jesus histórico real permanecerá de pé? Os Evangelhos como fontes de informação histórica sobre Jesus


Professor de Novo Testamento no Palmer Theological Seminary,
Eastern University



Por que os estudiosos supõem que os discípulos de Jesus eram transmissores menos confiáveis de seus ensinamentos do que os outros discípulos o foram para os seus professores? Se os discípulos de Jesus respeitavam-no como mais que um professor, e não menos do que um professor, este respeito
certamente não justifica deliberadamente deturpar seu ensino. A "memória coletiva” de seus discípulos poderia corrigir lembranças individuais durante as recontagens da história de Jesus.

Estudiosos reconstroem o Jesus histórico de várias maneiras. Muitas vezes eles fazem isso com base em quais fontes sobre Jesus eles privilegiam e quanto eles aceitam como confiável nessas fontes. Alguns estudiosos aceitam muito pouco nos Evangelhos como confiável, portanto, oferecem às vezes reconstruções do silêncio que permanece - os argumentos do silêncio. Por causa de sua confiança mínima nos Evangelhos, outros se sentem livres para jogar alguns elementos da tradição evangélica uns contra os outros - embora normalmente estes elementos não são intrinsecamente contraditórios.

Nenhuma destas abordagens atendem a maneira que gostaríamos de ler documentos comparáveis não associados a uma religião mundial. Isto é, se essas fontes envolvessem um imperador ou filósofo do século I, provavelmente nós iríamos lê-los menos céticos. Nós não curvaríamo-nos tanto para trás para se desculpar por nossas fontes e para proporcionar uma leitura minimalista; poderíamos simplesmente utilizar as melhores informações disponíveis para oferecer a mais provável reconstrução possível. A maioria do que se segue tem paralelos em um argumento mais amplamente detalhado nos capítulos 5-10 do meu recente Historical Jesus of the Gospels [1].

Os Evangelhos como Biografia

Leitores ao longo da maioria da história se aproximaram dos Evangelhos como "vida" (bioi) de Jesus. Os autores contemporâneos dos Evangelhos estavam familiarizados com esse gênero, que é atestado tanto antes como após o seu tempo. No entanto, essas biografias antigas diferem em muitos aspectos das biografias modernas. Muitas vezes os biógrafos antigos dispunham essas obras topicamente em vez de cronologicamente, e incidiam sobre os elementos mais relevantes da vida da pessoa (como a sua carreira pública, ensino, ou o martírio) ao invés de tentar resumir a vida como um todo. Por esta razão, grande parte da academia do século XX, rejeitou a classificação de "biográfico" para os Evangelhos. Nas últimas décadas, como os estudiosos analisaram as analogias mais antigas para os Evangelhos, tornou-se cada vez mais claro que os Evangelhos foram concebidos como biografias, embora sim antiga e não tais com as modernas [2].

Mas o que era uma antiga biografia? Estudiosos têm, por vezes, agrupado uma variedade de trabalhos nesta categoria, alguns deles claramente diferente da forma tradicional da biografia atestada na maioria dos biógrafos do período [3]. Alguns estudiosos têm colocado algumas novelas nesta categoria, mas esses trabalhos mostram pouco interesse em informações históricas ou fontes.

Dada a clara dependência sobre fontes de Mateus e Lucas, os Evangelhos parecem pertencer à linha majoritária do gênero que trabalhou na base de informações. (Desde que, sem grande esforço, dependem de Marcos, é claro que os primeiros intérpretes de Marcos, escritos menos de uma geração depois dele, conceberam Marcos como uma biografia igualmente; e dada a cronologia relativa, estes intérpretes estiveram, sem dúvida, mais bem informados do que nós).

Biografias antigas, como os clássicos notam, eram primariamente obras históricas. Biógrafos normalmente escreviam em um nível mais popular do que os escritores de histórias de vários volumes, mas eles procuravam transmitir informações. Como escritores, biógrafos poderia tentar entreter, mas em contraste com romances, eles também procuravam informar, usando o material primário de que dispõem. Os biógrafos, tal como os historiadores, tiveram agendas: eles buscavam explicitamente oferecer lições de moral, e muitas vezes traíam perspectivas políticas ou mesmo teológicas particulares. Mas essas lições caracterizaram biografias muito mais do que novelas e foram oferecidos programas com base nos relatos recebidos sobre uma pessoa, e não pura imaginação.

Essas observações não significam que as biografias sempre tinham suas informações corretas. No entanto, muitas vezes podemos distinguir quais as biografias tendem a ser mais precisas. Biógrafos e historiadores escrevendo sobre figuras recentes tendem a ser bem mais freqüente, do que aqueles que escrevem sobre antigas. Aqueles que escrevem sobre personagens que viveram séculos antes tinham que depender de fontes que tipicamente incluíam muitos desenvolvimentos lendários, elementos mais raros nos trabalhos sobre eventos menos de um século de idade. (Historiadores antigos reconhecem estas diferenças.) Nós às vezes também podemos testar biógrafos contra outras fontes existentes, para observar quais escritores ficaram mais próximos das suas fontes.

Tais considerações sobre as biografias antigas são bastante relevantes para a forma como abordamos os Evangelhos. Os Evangelhos endereçaram-se a acontecimentos facilmente adentrados duas gerações de sua composição; suas fontes datam para dentro de uma geração dos eventos. Ao compará-los uns com os outros, é claro que Mateus e Lucas (quem nós podemos melhor testar) usaram as suas fontes com muito cuidado, pelos padrões antigos (como uma sinopse dos evangelhos irá revelar). (Como E.P. Sanders e outros observam, se os escritores estivessem inventando histórias livremente, não teríamos Evangelhos "Sinóticos", ou seja, Evangelhos com muita sobreposição no seu material.) Isto não significa que esses autores se preocuparam em contar cada detalhe exatamente da maneira que eles receberam - a maioria das audiências antigas esperava dos escritores exercer mais liberdade do que isso - mas que, pelas normas que se aplicam a seus contemporâneos, os Evangelhos são fontes extremamente úteis.

Nossos mais antigos escritos sobre Jesus

A maioria das fontes mais antigas que temos sobre Jesus fora dos Evangelhos (por exemplo, algumas linhas em Josefo) oferece apenas trechos sobre Jesus. Enquanto isso, a autenticidade das fontes mais tardia é geralmente questionável. Não há consenso sobre a data de alguns evangelhos gnósticos, mas a maioria dos estudiosos data as primeiras das obras (que são coleções mais de ditos do que da "vida" de Jesus) para cerca de 70 anos após o Evangelho de Marcos. A maioria dos outros "evangelhos" (geralmente romances ou coleções de provérbios) são gerações ou séculos depois.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A Crença em Deus em uma Era de Ciência

A Obra de John Polkinghorne, Belief in God in an Age of Science, baseado em suas Terry Lectures na Universidade de Yale, explora as consequências radicais das revoluções recentes na ciência para o conflito entre o ceticismo e a fé. Aqueles familiarizados com Polkinghorne - um eminente físico da Universidade de Cambridge, que acontece também ser um sacerdote anglicano - vai encontrar aqui uma destilação das reflexões anteriores, bem como alguns novos argumentos. Teólogos e cientistas vão encontrar aqui alimento para o pensamento, e filósofos deveriam prestar atenção - para o casamento de John Polkinghorne da percepção científica e teológica,que bem pode pressagiar uma nova fase "pós-secular" no pensamento ocidental.

O Ocidente está entrando em um novo capítulo em sua história intelectual, e John Polkinghorne é um de um punhado de cientistas que já tenham, por assim dizer, conseguido ler algumas páginas à frente no texto. Belief in God in an Age of Science não é uma mera reedição da cansativa controvérsia “religião x ciência”. O livro vale a pena ler, não só pelos seus muitos insights, mas também porque pressagia um novo estilo de pensamento que nos leva além, não só do moderno, mas também do pós-moderno – uma sofisticada e cientificamente informada perspectiva que não deixa de ser animada por uma firme e racionalmente suportada religiosa.

Como físico, Polkinghorne entende o que muitos pensadores ocidentais, sem formação científica, ainda têm de perceber: que a ciência recente abalou os fundamentos materialistas da visão de mundo secular moderna. Filosofia moderna, de Hobbes em diante, tomou o rumo de um científico mecanicismo/materialismo, a partir de uma visão do universo como meramente "matéria e movimento". No entanto, ultimamente a física e a cosmologia já correram adiante, deixando mais esta perspectiva para trás.
Uma característica fundamental do cosmos apresentado pela nova física é a sua amistosidade a Deus. A mecânica newtoniana levou à visão de um universo mecânico menos o Relojoeiro. Mas quanto mais os cientistas investigaram a evolução cósmica, mais eles se deram conta, na frase de Fred Hoyle, que o universo é um "arranjo planejado”. Para a vida humana emergir, o mecanismo cego da seleção natural não foi suficiente; pelo contrário, as leis da física tinham que ser programadas minuciosamente desde o momento do big-bang. Uma variação infinitesimal em qualquer uma das constantes físicas teria impedido a vida.

Nos dias presentes a cosmologia, portanto, deixa-nos com uma escolha: ou o universo foi criado por um designer inteligente, ou é uma coincidência enorme e incrível de forma que nós mal podemos imaginar. Versando sobre o filósofo John Leslie, Polkinghorne escreve que existem duas possibilidades lógicas: "que Deus é real, e/ou existem muitos e variados universos", sendo este último invisível, indemonstrável e, provavelmente, não detectável em princípio. Polkinghorne não insiste no ponto. Embora a hipótese de Deus não seja "logicamente coercitiva", como ele coloca, facilmente se levanta contra a alternativa.

No entanto, o interesse de Polkinghorne não está em provar a existência de Deus, mas sim em mostrar como a teologia pode "reivindicar" um "entendimento intelectualmente satisfatório", completando crucialmente a ciência. Ele também procura mostrar como a teologia e a ciência, no diálogo, podem informar e corrigirem-se umas às outras. Seu alvo, em certo sentido, é a moderna formulação-padrão da relação religião-ciência, que cedeu à ciência toda a esfera da verdade objetiva e - especialmente desde Friedrich Schleiermacher – a teologia expedida cada vez mais ao subjetivismo e à especulação vazia. Quando se trata de ciência, Polkinghorne opõe-se ao positivismo ingênuo. Quando se trata de teologia, ele insiste na necessidade de uma maior preocupação com a verdade objetiva.

A ciência, Polkinghorne enfatiza, não é livre de valores, mas sim uma atividade carregada deles. Considerações tais quais a "beleza" e "elegância" da teoria são "fundamentais" para a física; o discurso científico depende de virtudes morais, como " honestidade "e "generosidade de partilha intelectual".

Mas ele resiste a qualquer noção de que a realidade é "socialmente construída". Da mesma forma, ele reprova alguma teologia de despreocupação com a verdade simples, no sentido literal do termo. Ele defende o que ele chama de "realismo crítico" e "bottom-up" [expressão que significa “emergência”, “de baixo para cima”, que na linguagem das ciências da complexidade se referem a sistemas que, pela ação de seus agentes, adquirem propriedades novas em níveis mais acima que não constam nos de baixo – Nota do Tradutor] da teologia, favorecendo interpretações bastante ortodoxas e literais dos principais mistérios cristãos, incluindo a encarnação, redenção, e até mesmo (como ele deixou claro em The Faith of a Physicist) o nascimento virginal.

Poderá a nova física gerar uma nova teologia? Polkinghorne oferece uma iluminação fascinante sobre a questão do livre-arbítrio e a divina providência, observando que o estado da arte na física - via e caos teoria quântica - tem deixado de lado o velho princípio do determinismo. Suas mais eloquentes observações referem-se ao que as leis da natureza dizem sobre o problema do mal, sugerindo que um divino "deixar-ser" é necessário para garantir a liberdade humana.

É da natureza de densos campos de neve que, por vezes, derrapam com a força destrutiva de uma avalanche. É da natureza dos leões que eles vão buscar suas presas .... é da natureza da humanidade que às vezes as pessoas vão agir com generosidade altruísta, mas por vezes com o egoísmo homicida. Que estas coisas são assim não é gratuito ou por descuido ou divina indiferença. São os custos necessários ao dom dado à criação por seu Criador de ter a liberdade de ser si mesma. Teólogos e cientistas vão encontrar alimento para o pensamento aqui, e os filósofos devem ter atenção - para o casamento de John Polkinghorne da percepção científica e teológica, que bem pode pressagiar uma nova fase "pós-secular" no pensamento ocidental.


* Resenha por Patrick Glynn - diretor adjunto da George Washington University Institute for Communitarian Policy Studies, é o autor de Deus: a Evidência - a reconciliação entre a fé e a razão no mundo atual.


domingo, 17 de outubro de 2010

Paulo e a Ordem Imperial Romana

Horsley, Richard A., ed.
Paul and the Roman Imperial Order
Harrisburg, Pa.: Trinity Press International, 2004

Verlyn D. Verbrugge
Zondervan and Reformed Bible College



A maior parte dos estudiosos modernos têm visto os escritos de Paulo como em diálogo com o judaísmo. Ele era, afinal, um fariseu que estava completamente familiarizado com os modos de pensar judaico. Além disso, o próprio Jesus Cristo nasceu em uma família judaica e passou a maior parte de sua vida na Galiléia do século primeiro e Judéia. O cristianismo primitivo era visto como uma seita do judaísmo, e Paulo entrou debates com outros judeus cristãos sobre a forma como quão grande parte da lei do Antigo Testamento os seguidores de Jesus deveriam aderir. Muitos estudiosos em ambos os séculos XIX e XX, chegaram a argumentar que as cartas do Novo Testamento refletem uma batalha entre o pensamento de Paulo e Tiago entre os que insistiam em liberdade da lei e aqueles que pregavam a estrita observância da lei.

Mais recentemente, os estudiosos têm uma visão menos acentuada de um conflito entre Paulo e a compreensão judaica tradicional do papel da lei na vida do povo de Deus. Mas o que poucos estudiosos têm feito é ver o locus da controvérsia de Paulo com a ordem imperial romana e, em particular, a política a nível local. Richard Horsley, no entanto, tem investigado este assunto. Editou dois livros anteriores nesta área: Paulo e o Império: Religião e poder na Sociedade Romana (1997) e Paul and Politics: Ekklesia, Israel, Imperium, Interpretation (2000); a estes dois livros agora podem ser adicionados ao presente volume.

Este livro surgiu do grupo “Paulo e Política” da Sociedade de Literatura Bíblica, que discutiu o tema "Paulo e a Ordem Imperial Romana" em sua reunião anual em 2000, em Nashville. Quatro dos ensaios deste livro foram apresentados pela primeira vez na referida sessão, e a estes foram acrescentados mais diversos ensaios de outros estudiosos respeitáveis. O historiador clássico Simon R.F. Price, que publicou Rituais e Poder: O Culto imperial romano na Ásia Menor em 1984, escreve uma breve resposta de apreciação ao final do livro. Cada um dos ensaios, de alguma forma mostra como "o evangelho e missão de Paulo estavam claramente opostos à César e à ordem imperial romana, e não à lei judaica" (5).

sábado, 28 de agosto de 2010

O Novo Testamento e o povo de Deus - Origens Cristãs e a Questão de Deus, vl.1

Este maciço empreendimento lança as bases epistemológicas, literárias e históricas para a série de N.T. Wright em seis volumes ( “The New Testament and the People of God” , “Jesus and the Victory of God”,”The Resurrection of the Son of God”, “Paul and the Faithfulness of God”, “The Gospels and the Story of God”, “The Early Christians and the Purpose of God”) , intitulada “Origens Cristãs e a Questão de Deus”. De tirar o fôlego em seu escopo e inovador em sua metodologia, “Novo Testamento e o povo de Deus” é uma leitura obrigatória.

Wright começa lidando com o problema intrincado da hermenêutica (sentido lato) e autoridade, afirmando que a teologia deve ser trabalhada em conjunto com a história e crítica literária. Ele reconhece, porém, que a epistemologia deve ser tratada em primeiro lugar. Epistemologicamente, Wright não só rejeita o positivismo ingênuo que imagina que os textos e os eventos podem ser interpretadas "objetivamente", mas também o fenomenalismo subjetivo que prejudica o discurso público. A meio caminho tomado por Wright é a do realismo crítico [concebe que ainda que o que é apreendido é mediado por condicionamentos diversos, é possível captar algo da realidade objetiva; contudo, tal captação é imperfeita e parcial - nota do Tradutor]: considerando que a observação inicial deve ser contestada pela reflexão crítica, no entanto, é possível captar algo da realidade. Embora não advogando o pós-modernismo, no entanto, Wright, na forma pós-moderna boa, toma muito das histórias como janelas para visões de mundo.

A análise literária que Wright usa é uma versão modificada de análise da narrativa de A.J. Greimas, mapeando as seqüências iniciais, seqüências tópicas, e as seqüências finais das histórias bíblicas. Usando esta ferramenta, no contexto do realismo crítico, Wright propõe-se estudar as visões de mundo antigas, o espírito, objetivos, intenções e motivações. Ele é rápido para acrescentar que esta é a disciplina do estudo histórico, e não a especulação psicológica.

Wright rejeita abordagens ingênuas da autoridade das Escrituras, incluindo os termos do debate popular sobre quais aspectos são "culturalmente condicionados", e que são "eternamente verdadeiros", pois afinal: "Tudo do Novo Testamento é "culturalmente condicionado"(p. 20). O modelo de autoridade que Wright propõe é melhor ilustrado como "uma peça de Shakespeare, cuja maioria do quinto ato foi perdido" (p. 140). Os atos de 1 a 4 incluem a Criação, Queda, Israel, e Jesus; o quinto ato é trabalhado em si mesmo de uma forma consistente com os quatro primeiros.

Wright, em seguida, passa a traçar a visão de mundo do judaísmo do primeiro século (ou judaísmos), considerando os seus símbolos: Templo, Terra, Torah, e a identidade racial. Esta visão é explicada em crenças de Israel centrais do monoteísmo “criacional”, eleição e escatologia, entendida em um contexto de aliança. Mas o que é inovador sobre o tratamento de Wright do judaísmo do primeiro século é o seu ponto de partida na turbulência política da época e não em questões abstratas das verdades eternas. Antes mesmo de tentar fazer uma descrição dos fariseus, essênios e os saduceus, Wright descreve a luta da história de Israel contra os opressores imperiais da Babilônia a Roma, com especial atenção para a revolta judaica. Ele escreve:
Qualquer sugestão, ainda que por implicação, que os judeus levavam despreocupadas vidas de lazer para discutir os pontos mais delicados da teologia dogmática deve ser rejeitada. A sociedade Judaica enfrentou grandes ameaças externas e os principais problemas internos. A questão, que pode significar ser um bom e leal judeu, esteve pressionando as dimensões sociais, econômicas e políticas, bem como os culturais e teológicas .... As necessidades prementes da maioria dos judeus do período teve a ver com a libertação - da opressão, da dívida, de Roma. Outras questões, sugiro, foram regularmente vistas a esta luz. A esperança de Israel, e da maioria dos grupos de interesses especiais dentro de Israel, não era para felicidade pós-morte desencarnada, mas por uma libertação nacional que atenda às expectativas despertadas pela memória e celebração regular, do êxodo e, por outro lado mais próxima, a história dos macabeus. Esperança focada na vinda do Deus de Israel (pp. 169, 170).

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Antigos Textos para o Estudo da Bíblia Hebraica : um guia para a literatura de pano de fundo

Ancient Texts for the Study of the Hebrew Bible: A Guide to the Background Literature

Kenton L. Sparks.  Peabody, Mass.: Hendrickson, 2005.

resenha por John L. McLaughlin    
                   University of St. Michael’s College
                   Toronto, Ontario, Canada

A Bíblia Hebraica não representa mera coleção de livros, mas uma impressionante gama de gêneros literários. Para iluminar completamente a história e a cultura do Antigo Testamento, é necessário comparar esses escritos antigos com os textos semelhantes, escritos simultaneamente, por vizinhos de Israel. Começando com uma visão geral dos arquivos literários importantes do antigo Oriente Próximo, Sparks fornece referências exaustivas às contrapartes literárias antigas aos gêneros mais importantes da Bíblia Hebraica. Examinando os escritos antigos encontrados em todo o Egito, Mesopotâmia, Anatólia e Palestina, Sparks fornece um breve resumo de cada texto discutido, traduzindo trechos breves e ligando-os literariamente a similares passagens bíblicas.

Explorando mais de 30 gêneros de literatura de sabedoria, hinos, poemas de amor, rituais, profecias, apocalípticas, novelas, lendas épicas, o mito, a genealogia, história, direito, tratados materiais epigráficos, e outros, oferece um guia exemplar para o ambiente literário fértil no qual os escritos canônicos estão envolvidos. Enriquecido com material bibliográfico, este catálogo inestimável permite ao leitor localizar não somente os textos publicados nas suas originais línguas antigas, mas encontrar traduções adequadas em inglês, somando comentários sobre os textos antigos. Uma série de índices úteis completa este excelente recurso. Proporciona aos alunos uma introdução aprofundada a literatura do antigo Oriente Próximo – e poupando tempo aos estudiosos com uma admirável ferramenta de atualização da pesquisa - vai-se tornar um programa padrão para uma infinidade de cursos.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

A Paixão de Jesus: História relembrada ou profecia historicizada?



A época da Páscoa de 1995 foi introduzida com mais um livro sobre Jesus de John Dominic Crossan, um dos mais interessantes e talentosos escritores de língua inglesa do mundo. A obra de Crossan Who Killed Jesus?” [ no Brasil, "Quem matou Jesus?" pela editora Imago] é certeza de comandar, assim como seu The Historical Jesus [ no Brasil,"O Jesus Historico -a vida de um Campones Judeu do Mediterrâneo", pela editora Imago]  , uma grande dose de atenção no nível popular [1]. Mas o livro também levanta muitas questões no tocante ao método e os pressupostos no que diz respeito aos estudiosos.

O objetivo principal do livro é fazer com que fique enfaticamente claro para os leigos e não-especialistas o que os estudiosos bíblicos têm reconhecido na maior parte do século XX: Os romanos, não o povo judeu, foram os principais atores na execução de Jesus. Nisto reside o apelo popular do livro. Crossan explica que a participação judaica na morte de Jesus foi limitada a alguns dos aristocratas sacerdotais que, quando ofendidos e / ou ameaçados por declarações e atividades de Jesus em Jerusalém, alguns dias antes da Páscoa, entregaram-no a Pôncio Pilatos, o prefeito romano da Judéia.

Em tempos mais recentes os estudiosos têm justamente reconhecido a apologética no trabalho em que os próprios Evangelhos, escritos durante um período de ameaças romanas, tentaram colocar as autoridades romanas na melhor luz possível (ou seja, Pilatos apenas relutantemente concordou em executar Jesus) e enfatizar a responsabilidade dos sacerdotes no poder e os membros do Sinédrio. Essa apresentação ajudaria a proteger os cristãos, num mundo romano hostil, das acusações de promoverem a fidelidade a um inimigo do estado. Com efeito, os cristãos podem responder: “Sim, oficialmente Roma fez executar Jesus, mas era realmente a liderança judaica que trouxe a execução sobre Jesus, porque ele tinha a criticado". Desta forma, os primeiros cristãos quase podem ficar do lado de Roma, o que seria muito desejável, tendo em vista a sangrenta guerra travada entre judeus e romanos em 66-70 d.C.

O que faz esta apresentação de Crossan tão distinta desta conclusão de outra forma nada excepcional, é a sua confiança no "Evangelho de Pedro", um evangelho não-canônico que as principais correntes de acadêmicos datam para o segundo século, e consideram como sendo secundário aos Evangelhos canônicos [2]. Contrariamente a esta opinião mantida amplamente, Crossan afirma que Pedro é o mais antigo evangelho, a primeira tentativa conhecida para transformar profecias messiânicas do Antigo Testamento em história sobre Jesus. A história da paixão do Evangelho não é "história lembrada", enfatiza Crossan, mas "profecia historicizada".

Ele sustenta ainda que os quatro evangelhos canônicos são dependentes de "Pedro" [3]. Esta é a parte do livro de Crossan que é a menos convincente, e, infelizmente, ocupa a maior parte do livro. O valor salutar do livro (ou seja, o argumento de que o povo judeu não assassinara Jesus) desaparece de vista, o leitor é tributado com uma defesa prolongada da antiguidade e da prioridade de um evangelho apócrifo atribuído a Pedro sob pseudônimo. Por que Crossan faz isso?

terça-feira, 6 de julho de 2010

Um Comentário sobre o Evangelho de Mateus

Keener, Craig S.
A Commentary on the Gospel of Matthew
Grand Rapids: Eerdmans, 1999.

resenha por Douglas R. A. Hare


Durante a década de 1960 e 70 havia uma escassez de atualizados e abrangentes comentários sobre Mateus adequados para o trabalho acadêmico com estudantes de seminário avançados e universitários. A nova onda começou com Robert Gundry em 1982, seguido pelo comentário de três volumes de W.D. Davies e D.C. Allison e a contribuição de D. Hagner no volume 2. Agora, na virada do século, Craig Keener produziu um comentário acadêmico cuidadoso, de 1000 páginas, que será muito útil para seminários sobre Mateus, apesar de que seu alto preço dificultará muitos estudantes de comprá-lo. [ nota do blog: usado é pra isso, hehehe - é como eu faço].

Na "Introdução", Keener declara sua intenção: apresentar uma análise dos contextos sócio-históricos de Mateus e de suas tradições e, unidade por unidade, sugestões sobre as exortações do evangelista (com propostas relativas à sua relevância atual). Devido à sua preocupação com a literatura e o contexto histórico, ele é assíduo na prestação de referências a literatura greco-romana, onde existem paralelos, ainda que muitas vezes conclui que as semelhanças são muito remotas para serem relevantes. Referências a fontes judaicas contemporâneas e, posteriormente a literatura rabínica, também são extensas.

Keener refere-se ao evangelista como um biógrafo da diáspora que é influenciado por modelos pagãos contemporâneos dele. Mateus, argumenta ele, é conservador no seu uso de suas fontes, o ônus da prova recai sobre aqueles que negam a autenticidade histórica do Evangelho e de seu conteúdo. Ele inclina a atribuir o Evangelho ao discípulo Mateus, mas admite que a segurança é impossível. Ele defende uma data após 70 d.C. O debate intramuros/extramuros, ele propõe, é basicamente redutível à semântica; os cristãos judeus que constituíam a audiência primária de Mateus apresentavam estruturas distintas das sinagogas, mas agarraram-se à sua herança judaica, o que significa que permaneceram membros de suas comunidades da sinagoga local. Gentios convertidos deveriam adotar alguns elementos da cultura judaica.