
Cambridge: Cambridge University Press, 2009.
de Ellen F. Davis
P.S. Recomendadíssimo!!! Observação: Confiram a Agricultura Familiar no Censo Agropecuário 2006
Resenha por Philip F. Esler
Originalmente publicada na Review of Biblical Literature
Para quem acredita que o Antigo Testamento é uma voz poderosa em prol da nossa utilização sustentável dos recursos do planeta (o que alguns negam), mas está insatisfeito com as tentativas atuais para demonstrá-lo (por exemplo, a muita desgastada idéia de “mordomia”), o livro de Ellen Davis: Scripture, Culture, and Agriculture: An Agrarian Reading of the Bible – “Escritura, Cultura e Agricultura: Uma Leitura Agrária da Bíblia” é sua resposta. Este é um trabalho recente e triunfantemente bem sucedido da acadêmica sobre a questão muito importante da nossa relação com a terra, que permite uma vasta varredura do Antigo Testamento para dar vazão à sua inteligência profunda e entranhados insights morais que sempre estiveram disponíveis se apenas alguém perguntasse as perguntas certas.
Na pesquisa como na vida, a sorte favorece os audazes. De uma maneira estreitamente aparentado com o trabalho dos críticos que utilizam deliberadamente as áreas das ciências sociais como estrutura heurística para o trabalho com a referida questão nos textos bíblicos em formas inovadoras e socialmente realistas, Professora Davis voltou a teoria agrária, tipificada no trabalho de Wendell Berry (que escreveu um prefácio para este volume) e outros escritores, como Wes Jackson e Bruce Colman. Uma abordagem agrária insiste em que nos foi dada a terra para cuidar, numa atitude de reverência e humildade diante dela. Ela traz à tona a importância de nossa conexão com a memória de determinadas localidades das quais tiramos o sustento de que necessitamos.
Acima de tudo, salienta que devemos utilizar a terra de forma sustentável, para não comprometer os seus meios de sustentar-se. Ela define o ideal de pequenas propriedades intimamente ligadas com a terra e da agricultura de uma forma diversificada em nítido contraste com a agricultura em larga escala industrial do agronegócio, altamente dependente de fertilizantes e monocultura, diminuindo sem remorsos os níveis de nutrientes na terra e levando ao despovoamento das zonas rurais. Como afirma Davis em sua primeira frase, "agrarianismo é uma maneira de pensar e de ordenação da vida em comunidade, que baseia-se na saúde da terra e dos seres vivos". Agrarianismo é uma perspectiva para a tarefa de exegese, não é um método distinto.
O ponto de conexão particular (extremamente rico) entre idéias agrárias e o Antigo Testamento é que seus textos, de forma abrangente assumem um cenário agrícola, onde os pequenos agricultores em terras dificultosas e frequentemente marginais da região montanhosa da Judéia tinham que trabalhar em estreita harmonia com os ciclos e ritmos da natureza para sobreviver. Além disso, a relação dos antigos israelitas para com Deus pressupõe a sua concessão da terra enquanto permanece de pé seu uso adequado. Uma das características mais impressionantes do livro é o quanto do texto de Davis refere-se a essa configuração e essa perspectiva. Adotar uma perspectiva agrária tem sensibilizado seu olhar para tal, e tantas vezes para encontrar os dados textuais que falam a essas preocupações de forma altamente desenvolvida. Ela se permite redescobrir o Antigo Testamento como uma fonte de riqueza espantosa de estímulo, reflexão, oração e ação sobre o tema principal de nossa época.
O padrão básico dos capítulos para Davis é estabelecer um diálogo entre os aspectos particulares de pensamento agrários e leitura crítica de textos selecionados para estimular a nova interpretação, tanto histórica (enriquecer a nossa compreensão do que significava esses textos ao seu público original) e teológica (ajustando as poderosas reivindicações que eles fazem sobre aquilo com uma consideração particular para o Antigo Testamento ou as tradições dele derivadas, cristãs, judias e muçulmanas, especialmente).
Eu só posso dar um sabor de seu argumento. No capítulo 1 ela começa com a necessidade de abrir nossos olhos para o que estamos fazendo para com a fertilidade da terra, numa altura em que a tecnologia da era da informação tem reduzido muito a nossa capacidade de conhecer o mundo natural através da experiência direta. Isto leva a uma reflexão de como os profetas instruíam nossa fraca imaginação religiosa através de "melhoramento visual", incluindo vendo um mundo tornado um deserto estéril (Jr 4:23-26), de uma forma alarmante próxima dos resultados da mineração de carvão por remoção da montanha em Appalachia. Do mesmo modo, Isaías 24:1, 3-4 traz o horror da destruição causada na terra, ao se quebrar a Aliança. Se sofrer a dor de ver, podemos ajudar as nossas comunidades a "re-lembrar-se", para trabalhar em conjunto para a sua própria integridade e a da criação.

Muitas partes da Escrituras Hebraicas articulam uma mensagem clara sobre o nosso respeito e cuidado para com a terra e, inversamente, a sua destruição (28).
No capítulo 6 Davis incide sobre as economias locais de alimentos, que caracterizam a agricultura em pequena escala praticada pelos antigos israelitas e modernos agricultores agrários e seus cuidados íntimos com a terra, que em seu cultivo diversificado pode realmente produzir uma maior produção total por hectare do que em monocultivo de escala industrial. As explorações de menor escala também levam a comunidades locais mais vibrantes. Ela mostra como na Bíblia hebraica a palavra nahala representa um complexo de idéias para manejar a posse da terra, incluindo a espiritualidade interior de um lugar particular, onde o cultivo foi realizado em espaços ecológicos frágeis.
"A utilização gentil" dos modernos agricultores agrários é aparentada com sétimo ano, o “a cessação sabática" (Levítico 25:4, 5; 26:34), que fortemente enfatiza o fato de que a terra pertence a Deus. Este capítulo também contém uma ótima interpretação da história de Acabe e da vinha de Nabote (1 Rs 21), como ilustra a colisão entre uma economia local de Israel com base na subsistência e uma economia controlada pelo Estado produzindo excedentes de culturas específicas. Salmo 37, Davis argumenta, representa a restauração de Deus da ordem correta.
O capítulo 8 trata das respostas de Amós, Oséias, Miquéias e Isaías da latifundiarização da terra em Israel e Judá no século VIII a.C., o que levou a terra anteriormente dedicada à cultura de subsistência sendo entregue aos grãos, pecuária, vinho e produção para exportação para gerar renda para sustentar o estilo de vida rico das elites urbanas. Aqui ela oferece uma fascinante comparação entre este corpus profético e o papel da poesia Celta recitando no ressurgimento da propriedade da terra das comunidades locais na Escócia. Embora a situação no século VIII a.C. tenha sido bem percorrida pelos pesquisadores como Marvin Chaney, Davis faz muitas novas contribuições.
Por exemplo, ela destaca preocupação de Amós para com o solo fértil, com adama, "terra arável", aparecendo dez vezes. Ela também argumenta contra leituras de Oséias que interpretam sua obra como um ataque a líderes religiosos dedicados a cultos de fertilidade, e não como em causa o bom relacionamento com a terra, na medida em que os sacerdotes são criticados por seu envolvimento na agricultura de commodities. Assim Oséias 9 mostra "uma mistura perfeita dos temas da sexualidade e da alimentação, dos filhos e da colheita, do amor e da adoração e da economia e ‘política internacional’ "(135).

A perspectiva excitante que emerge desta é a geração de um diálogo frutífero entre a interpretação bíblica agrária da qual Davis foi pioneira e estes novos desenvolvimentos na ciência e na ajuda ao desenvolvimento. Este diálogo poderia reunir especialistas e população em geral, para ajudar-nos a todos a compreender melhor as questões e obter apoio para sua solução, situando-os dentro de um contexto bíblico que agora emerge como soberbamente produtivo de introspecção e reflexão. Aguardo ansiosamente a uma grande conferência internacional sobre o tema "Ciência de Ecossistemas e a Bíblia Agrária: Explorando as sinergias para construir um futuro sustentável".
É algo inusitado um blogueiro comentar na sua própria postagem, rsrs. Mas um reforço que dou para a recomendação deste livro vem através de uma nota autobiográfica, que ilustra o quanto fiquei feliz e contemplado pela proposta, me encontrando também na leitura dela.
ResponderExcluirSempre fui um urbanóide, ou seja, uma pessoa urbana com preconceito da roça. Tive traumas até de experiências, na adolescência e pré-adolescência. Mas algo no meu coração apontava para a frugalidade, singeleza, rusticidade e tenacidade da vida rural. Assistia também a programas televisivos.
Cursei agronomia, e tive contato com escritos e experiências com propostas para uma agricultura que contempla preservação e justiça ambiental, justiça social, eficiência comequidade econômica, integração cultural. Agroecologias. Reforma Agrária - que vai muito além de compra e distribuição de terras, que é o que é feito no Brasil. E junto com colegas, fundamos o Núcleo de Agricultura Sustentável do Cerrado, NASCer, um grupo de estudantes articulado em pesquisas, debates, atividades e promoção da agroecologia, reforma agrária e temas de interface. Tivemos experiências de pesquisa participativa, projetos de extensão, e hoje colegas são mestrando e doutorandos, outros trabalham em ONGs, com pesquisa, assistência técnica pública e privada, etc.
Trabalhei em ONG e hoje sou funcionário efetivo, engenheiro agrônomo, do Ministério do Desenvolvimento Agrário - MDA. http://www.mda.gov.br/
Poder ver como a espiritualidade e a fé iluminam essa caminhada, abrem perspectivas, movem-nos a motivações últimas, e nos integram como um todo enquanto pessoas, é indescritível. Ainda mais através de um trabalho com propriedade e rigor, sem forçações de barra ou meros apelos de constrangimento, que é muito comum de se ver.
Ótimo para discussões de grupo, para engendrar pesquisas, estudos nas igrejas, academia, seminários, e deleite e edificação particular.